domingo, 8 de agosto de 2010

Meu pai, meu herói e meu bandido.

Pai palavra com apenas três letras e, ao mesmo tempo, com diversos significados. Seres que foram geneticamente ou culturalmente programados para amarem seus filhos mais que tudo que exista nesse mundo, mas de complicada definição quanto à importância dessa figura no cotidiano de suas proles.

Cada pessoa tem um estilo de pai e, consequentemente, uma relação de afinidade estabelecida com esse. No meu caso o homem que fora destinado a ocupar tal papel chama-se Frederico e, mesmo com seu nome significando dirigente da paz, esse é de complicada convivência, mas é bastante gratificante sua presença e triste sua ausência.

Meu pai, meu herói, meu bandido e minha vida. É aquele que me manda trocar de roupa quando saio a noite para não admitir que sua filha cresceu, que fala um monte de bobeira em tom de brincadeira para que a verdade não doa tanto, que implica com a quantidade de comida do meu prato e, mesmo assim, pede para eu escolher os restaurantes quando saímos, que critica todos os namorados para mascarar um ciúme implícito em todas as frases ditas a respeito desses e que me morde nos braços, deixando-os roxos e até com pontos vermelhos de sangue, para demonstrar que me ama. Sim, eu não tenho um pai convencional e, muito menos, tradicional. Sou grata por isso!
É um típico representante do egocentrismo que não aceita ser contrariado. Se ele disse algo, aquilo passa a ser verdade universal e tentar convencê-lo de que está errado sobre determinado assunto é algo inútil, pois além de manter a história com vários detalhes ainda apresenta diversos argumentos para sustentar sua versão. Dessa maneira já brigamos feio por pouca coisa, pouca mesmo, pois quando o assunto era importante, os discursos foram ouvidos de uma distância que ultrapassa a separação entre os estados de Minas Gerais e Tocantins, o que me fez chorar por diversas, mas, hoje, exerce grande influência em minha personalidade, pois me ensinou a batalhar por aquilo que acredito mesmo que existam vários obstáculos no caminho da conquista.

Os especialistas afirmam que os pais devem saber dizer não aos filhos, como se essa fosse uma regra escrita em algum manual que tais deveriam ler durante a gestação. Nesse ponto me questiono, onde meu pai estava que perdeu essa parte do livro? Brincadeira para mencionar que ele nunca me negou nada, pois é aquele estilo de pessoa que abre mão de seu conforto ou de suas vontades para ver o outro feliz. Quando falo em negar algo me refiro aos mais diversos aspectos que a palavra pode atingir, o que varia de montantes de roupas e sapatos, viagens, uma possível plástica no nariz, uma folha de alface, um beijo no rosto acompanhado com uma mordida de amor no braço ou, simplesmente, uma mentira do bem para que terceiros não interrompessem nossas conversas semanais no celular. Tenho a certeza que posso contar com ele sempre que precisar, nem que seja para matar aula para conversarmos ou apenas falar que sinto a sua falta e o amo demais.

Mas nem tudo sempre foi um mar de rosas. Mesmo não tendo encostado a mão em mim como forma de educar, nem ao menos uma única vez, suas palavras em determinadas situações machucaram mais que a agressão física propriamente dita. Brigamos muito, principalmente em relação a minha escolha de curso superior, em que ofensas foram trocadas e lágrimas derramadas. Mas como em qualquer guerra, uma hora as batalhas acabam e a paz volta a reinar. No fundo eu sei que ele agiu assim, simplesmente, pensando no meu bem e querendo o melhor para o meu futuro, o que fez com que eu sempre buscasse o meu melhor e superar-me cada vez mais como forma de fazer com que ele sempre sentisse orgulho de mim, orgulho de gritar pro mundo que é meu pai.

Meu pai, meu amigo, meu companheiro. Aquele cara que se fez presente ao meu cotidiano mesmo que fisicamente não esteja por perto, o “coroa” que tem atitudes de jovens e alma de criança, o dito cujo com o qual eu posso falar sobre os mais variados assuntos sem censura e muito menos pudor e aquele que me chama para ver os filmes em sua companhia, com a condição de que eu fique de boca calada e não toque no controle remoto. Fazer o que, em todas as casas existem suas regras.

Cada pessoa que conhece meu pai tem uma visão a respeito da pessoa que ele é. Isso ocorre porque ele é mil pessoas em apenas um pequeno corpo com um enorme coração. Um pequeno grande homem, o sistemático bizarro, o sério carinhoso, o insensível que se comove, o exigente tranquilo, o Dr. Frederico e meu pai, o com defeitos e diversas qualidades, o possessivo liberal, o engenheiro ótimo no gatilho, o que grita e odeia quando falam alto em sua presença. Um homem com características infinitas, com histórias que renderiam um bom livro, um cara que eu tenho orgulho em dizer que é meu pai e que ele é o melhor em tudo, uma espécie de herói cujo posto ninguém consegue ocupar. É aquele que foi e é tão importante e único para a formação do que sou hoje, em que as palavras “obrigada por tudo” não teriam sentido perto do quanto sou grata a ele e a expressão “eu te amo” não teria a capacidade de transmitir a intensidade de um sentimento inexplicável.


(Mariana Tannous Dias Batista)

Um comentário:

Nilson Barcelli disse...

Mariana, já aqui não vinha há imenso tempo.
E este seu texto é fabuloso, porque vc conseguiu colocar em forma de letra muitas coisas acerca do seu pai que talvez nunca tenha conseguido antes.
Se o Dr. Frederico o ler, vai ficar derretido em lágrimas, porque as suas palavras são bem reais e muito bonitas.
Beijos.