sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

DISTÚRBIO ALIMENTAR: uma maneira de pedir socorro.


Falar sobre eu mesma seria um troféu ao meu egocentrismo. Mas dessa vez não quero falar sobre as qualidades que as pessoas insistem em estampar na testa ou os problemas da vida que servem como escapismo para não encarar a realidade. Quero falar sobre a obsessão, a ditadura da beleza e como as pessoas são capazes de cometer atrocidades em busca da perfeição. Mas, afinal, o que é a perfeição? Nessas linhas não falarei sobre política, sobre os problemas sociais e nem sátiras amorosas como de costume, mas contarei a minha história como um alerta para um problema que é grave e alastra-se mundialmente.

Quem nunca parou em frente a um espelho e desejou ser mais magra, ter as coxas mais torneadas ou um abdômen definido? Quem nunca alterou a cor do cabelo, submeteu-se às dietas radicais, fez uso remédios com promessas de resultados absurdos e recorreu às cirurgias plásticas para sentir-se melhor? Pois é, eu sou uma dessas pessoas, fiz tudo isso em busca de um padrão de beleza que nem eu sei de qual buraco arrumei. Lendo até aqui, pode parecer mais uma crônica sobre assuntos fúteis, mas não estou aqui para julgar e nem criticar ninguém, apenas para falar sobre o assunto por outro ângulo, aquele que não é o científico e nem o avaliado pelos psicólogos.

Nunca tive o corpo perfeito e sempre travei uma batalha com a balança. Comecei com as modificações no cabelo, no tamanho, na cor e na textura. Depois passei aos remédios e as dietas mais básicas, o que duraram dois anos. Tive resultados que não esperava e tornei-me compulsiva pelas tais pílulas milagrosas, minha droga diária, meu combustível. Ao entrar na faculdade, cursando Direito e Jornalismo, dediquei-me mais aos estudos e menos a estética. Comi, bebi, saí da dieta e como já era esperado ganhei oito quilos de presente, mas não ligava, porém fiz uma plástica no nariz simplesmente porque não gostava do original.

O problema realmente começou quando eu resolvi mudar minha aparência drasticamente e não poupei recursos para isso. Como estava de férias, voltei para academia e perdi cerca de três quilos em um mês. Depois passei a ser fiel as dietas drásticas, em que passava uma semana tomando apenas líquido e na semana seguinte comia salada e quantidades pequenas de pão e proteína e assim passei dois meses seguidos. Perdi muito peso, mas não era suficiente, então recorri aos laxantes, em que tomava quatro comprimidos por dia de sexta feira a sábado. Fiz isso umas quatro vezes, mas não deu muito certo porque não tinha comida no estômago para o laxante fazer efeito.

Como nunca fui a maior fã de exercícios físicos, tinha que descobri uma maneira de não ganhar o peso perdido. Almocei e forcei o vômito como uma forma de brincadeira e pensava que poderia parar quando tivesse vontade e tinha um acordo comigo mesma que só faria aquilo uma vez por dia. Mas a brincadeira foi virando coisa de gente grande e eu não soube lidar com a situação. Absolutamente tudo o que eu comia, eu já pensava em correr para o banheiro mais próximo e tirar aquilo de dentro de mim, nem que fosse apenas um pedaço de maçã ou um copo de suco e foi o que eu fiz durante meses, durante várias horas do dia.

Como toda mentira tem seu plano para dar certo, a mentira que eu vivia também tinha. Almoçava e esperava minha mãe levar meu irmão a aula para executar minha ação ou comia em casa e chegava à faculdade doida para dizer um “oi para o banheiro”. Minhas amigas e familiares falavam que eu estava perdendo peso e eu alegava que eram as dietas. Comecei a perceber que poderia ter algum distúrbio alimentar quando todos os problemas que me cercavam faziam-me ter vontade de forçar o vômito, simplesmente, eu trocava uma dor pela outra, a emocional pela física.

Após cinco meses nessa batalha e perdendo a guerra, senti uma dor estomacal muito forte, pois eu não precisava forçar o alimento, a neura era tamanha que ele voltava sozinho. Em uma crise, comecei a vomitar sangue e foi a primeira vez que assustei com o caso, o que me fez procurar um médico que, após uma bateria de exames disse que eu estava desenvolvendo um estado grave de gastrite e que meu esôfago também estava bastante comprometido e que eu teria que cuidar dos órgãos tomando cerca de sete comprimidos diários. Não me adaptei aos remédios e desenvolvi um caso clínico de muita ansiedade e tudo me irritava, ficava muito nervosa por pouca coisa e logo vinha a sensação, a vontade de correr para o banheiro e “vomitar a alma”, fazer com que meu estômago “gritasse” de tanta dor para que a situação sumisse. Não adiantou.

O início da solução foi quando contei a uma amiga o que estava acontecendo e ela falou que eu sofria de uma doença chamada bulimia nervosa. Na hora eu briguei, gritei e chorei bastante, porque ninguém quer ser chamado de doente e eu não queria admitir isso. Como eu não queria contar a minha mãe o que estava acontecendo, ela se propôs a ajudar-me com os remédios e que se fosse necessário, iria comigo a uma psicóloga, pois eu a fiz jurar que não contaria nada a ninguém. Pois é, em meio a uma crise de nervo, porque estava ficando com o corpo todo manchado e os médicos não achavam um diagnóstico acabei contando a minha mãe tudo o que eu tinha feito e fazia. Ela ficou muito chocada, não sei descrever até hoje a sua reação, se ela queria brigar comigo, se estava brava, preocupada ou se queria me dar um abraço, colocar-me em seu colo e falar que tudo ficaria bem.

Comecei outra batalha, contra a minha mãe e meu irmão mais novo. Os dois passaram a tomar conta de mim como se eu fosse uma criança. Se eu quisesse ir ao banheiro tinha que ser de porta aberta, tomava banho com um dos dois ao meu lado, enfim, basicamente não ficava mais sozinha. Com o tempo, voltei às dietas radicais, mas não forço mais o vômito. Em menos de um ano, perdi quinze quilos e, mesmo com muitas pessoas falando que eu estou magra demais, que se eu perder mais peso ficarei feia, eu ainda quero emagrecer. Resultado disso tudo, não consigo comer quase nada durante o dia e convivo diariamente com os meus demônios.

Sei que eu sou doente, que aquele capetinha de desenho animado fica o tempo todo em minha cabeça falando que eu devo recorrer ao vômito, porque eu sei que perderei peso fácil. Hoje (05/02/2010) estou a mais de dois meses livre desse monstro. Não acho que permaneci no tratamento devido a minha mãe ou aos meus amigos, e nem foi por causa da minha saúde, porque quem faz o que eu fiz não pensa nisso em momento algum, mas apenas na estética. “Tomei vergonha na cara”, é esse linguajar que deve ser usado, ao ver o caso de um menino na televisão conhecido como o “Homem Elefante”, que tem uma doença em que vários tumores deformaram seu rosto e corpo e, mesmo sabendo que não viverá muito tempo, ele é feliz.

Alguns meses atrás eu teria outro olhar sobre o assunto, mas hoje me preocupo com as diversas pessoas que passam pela mesma situação que eu vivi. O distúrbio alimentar é uma doença muito séria que atinge milhares de seres nos dias atuais, portanto deve ser levada a sério e não ser considerada como algo fútil. Eu presenciei o fato por quase um ano e sei o quanto o é difícil admitir quando temos um problema, que somos doentes. Sei que não é fácil pedir ajuda para algo que não concordamos, mas aprendi que sair sozinha dessa enrascada não é impossível, mas é complicado e alguns não chegam a ter esse tal tempo necessário. Assim, deixo a minha história aqui e o meu apelo aos pais para que notem o comportamento de seus filhos, que participem da vida desses e para que as pessoas não se preocupem tanto com o trabalho, com estética, com dinheiro e tenham tempo para amarem-se mais.


(Mariana Tannous Dias Batista).

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